EDUCAÇÃO DEMOCRÁTICA, DEFINIÇÃO EM CONSTRUÇÃO

Gabriela Yanez

Buscaremos no decorrer deste artigo discutir sobre a definição e as características da Educação Democrática, focando na sua constante redefinição. É por isso, que usaremos para análise alguns relatos, discussões e reportagens sobre a 15ª Conferência Internacional de Educação Democrática, realizada em setembro de 2007, em Mogi das Cruzes, São Paulo, Brasil. Faz-se necessário também afirmá-la por sua negação, isso é, por suas críticas e oposições a outras características de ensino.

Principalmente para ilustrar as questões centrais usaremos quatro “personagens” centrais, que explicitam algumas idéias, e marcam o processo de construção.

Importante pensarmos que essas conferências têm como função todo ano reavaliar e rediscutir conceitos e práticas, buscando assim um caminho e uma definição. Sendo assim podemos considerar que não há uma concepção fechada do que seja uma educação democrática e como essas escolas devem ser, podemos, então, analisar como uma prática condizente com toda a sua filosofia e princípios. Como poderíamos conceituar uma forma como sendo verdadeiramente democrática para designar experiências que questionam o conhecimento como único e verdadeiro?
Escolas, organizações não-governamentais, educadores, estudantes, pesquisadores e demais interessados na temática da educação democrática, marcaram a participação de diversos atores sociais na 15ª Conferência Internacional de Educação Democrática, na cidade de Mogi das Cruzes, SP, que ocorreu entre o dia 8 e 16 de setembro desse ano de 2007.

O encontro, que acontece uma vez por ano, e pela primeira vez na América Latina, tem o objetivo de discutir teoricamente sobre a educação democrática, bem como discutir e trocar experiências sobre as diferentes práticas, além de divulgar essa prática e suscitar idéias entre os educadores brasileiros que anseiam por alternativas à educação convencional. Desde 1993, escolas e grupos ligados à educação democrática reúnem-se em diferentes países como Austrália, Alemanha, Índia, Japão, Israel e Estados Unidos.

Na 15ª conferência contamos com a presença de representantes de Israel, Ucrânia, Canadá, Estados Unidos, México, Espanha, Chile, Japão e de diversos estados brasileiros.

O encontro foi organizado por mesas de debate, oficinas, exposições, shows e vivências. As oficinas visavam aprofundar certos debates, e dar continuidade a trabalhos realizados em outros encontros, por isso, aconteceram em várias etapas durante a conferência, e geralmente contava com o mesmo “grupo de pessoas”.

Os temas foram variados, justamente para contemplar diferentes focos do debate, Os temas foram: “Práticas da gestão democrática na educação”, “Avaliação democrática na avaliação”, “A educação e a cidade”, e por fim, a “Formação de educadores na perspectiva democrática”.
As oficinas tinham como primeira pauta recuperar as “sinalizações” feitas na IDEC 2006 como sugestões de assuntos a serem abordados, assim como entende-los e especificá-los.

O encontro contou com a presença de muitos convidados e também muitos curiosos sobre o tema, e como era de se esperar muita confusão foi feita sobre a diferença entre Educação Democrática e a Democratização do Ensino. Muitas mesas trataram dessa questão, e o que ficou claro, não para todos, é que se tratam de duas coisas diferentes.

Podemos, então, colocar o primeiro ponto fundamental para definição de Educação Democrática: está na sua base a crítica ao sistema de ensino atual, portanto, não se trata de perseguir que todos estejam na escola, tal como é colocado hoje, e sim de questionar sua verdadeira função colocando-se assim, como uma possibilidade ou alternativa ao sistema atual de ensino. Trata-se de inversão da lógica.

Para ilustrar com objetividade e respaldo teórico, recorreremos Maria Teresa Mantoan (UNICAMP), em sua colocação na palestra “Inclusão — que direitos? Que deveres?”.

Segundo a professora, a escola que não se questiona e não se mobiliza para atender a todos é uma escola excludente. A falsa idéia de inclusão — apenas trazermos os que estão de fora —, faz com que se caia na armadilha de não discutir a verdadeira questão, ou seja, refletir sobre as diferenças e entender o porquê a escola exclui.

A escola fabrica a exclusão através do que entende por ensino e aprendizagem, e assim exclui não apenas os deficientes ou uma minoria, mas a todos que tem dificuldade de aprender e acompanhar o processo. Isso acontece, pois o professor acredita que a emancipação do aluno tem a ver com a sua capacidade de reproduzir o que o professor ensina. Essa lógica considera o aluno emancipado quando esse atinge o que pretendíamos, quando conclui uma etapa de sua escolaridade, por exemplo, e sendo assim geramos toda condição para excluir aqueles que não se emanciparam.
Para Mantoan inclusão pressupõe novos parâmetros de ensino e aprendizagem, uma inversão na lógica. Nessa nova lógica todos os alunos devem ser considerados seres emancipados intelectualmente, mudando assim a maneira como se olha para cada um dos alunos, não mais como dependentes do professor para ser alguma coisa, mas dependente apenas de um professor que os vê como emancipados, e dê a eles liberdade para aprender.

Enquanto não invertermos essa lógica que proclama o aluno como um indivíduo que tem uma inteligência inferior, continuaremos excluindo, mesmo que isso seja maquiado e reinventado, mesmo que se criem novos artifícios para fazê-lo, pois não é meramente uma questão de prática de ensino.

O aluno tem direito de ir para a escola para se preparar para a vida pública, e precisa ter garantido seu lugar de saber, não como um lugar outorgado a ele, mas um lugar a ser exercido livremente, onde o professor o vê como emancipado e capaz de ir ao encontro do que quer saber.

Os excluídos hoje são pessoas incapazes de aprender, sem interesse e sem vontade, e o que os torna assim é o olhar que temos sobre eles na escola.

Mantoan admite que não são mudanças fáceis, mesmo porque os professores tendem a reproduzir o que foi passado a eles, e toda nossa formação é baseada nessa lógica excludente.

A questão que também é foco deste artigo — definição de educação democrática — foi muito perseguida e, na maioria das vezes, não foi concluída. Muito se discutiu para encontrar respostas que surgiram como novas indagações e inúmeras reflexões sempre colocadas como uma coisa aberta que não tinha uma fórmula, como explicitou Pacheco e Yacoov.

José Pacheco contou sobre sua experiência na escola da Ponte, colocou quais foram suas inquietações como educador que o levaram a tirar as paredes, acabar com as salas de aula, as disciplinas, os horários e outras coisas inúteis, que ele definiu como sendo quase tudo o que compõe a estrutura da maioria das escolas do mundo. E marcou que todos os passos devem ser dados com muita responsabilidade, que só depois de muitos anos dando aula pode repensar sua prática: “é preciso dar muita aula para aprender que não devemos dar aula”.

O professor começou sua trajetória na Ponte assumindo uma turma de “lixos”, como eram considerados os alunos “jogados fora” por outras escolas, e que a Ponte recebia. Pacheco começou então a se perguntar por que havia turmas? Não achou a resposta, nem em conversas com os outros professores, nem na teoria. Foi se indagando e buscando respostas, que decidiram então por acabar com as turmas, com as salas e com as aulas. Para ele, é impossível um só professor dar conta de tantos alunos, de tantas diferenças. E por isso, boa parte dos alunos não era alfabetizada, pois haviam ensinado a todos- a cada um- como se fossem um só. A escola então também exclui, pois reproduz o insucesso, e a exclusão não é só de deficientes, é uma exclusão social e política.

Na Ponte como se encontrava não se podia educar para a cidadania, pois nem mesmo os professores eram cidadãos plenos, não eram incluídos, livres e responsáveis, estão sempre submetidos a ordens superiores e não tinham seu trabalho valorizado. A solução foi lutar por uma autonomia com relação ao Estado, para então ter condição de incluir.

Pacheco afirma que a inclusão é incompatível com séries, aulas, provas e um professor por sala. É preciso que se respeite as individualidades, permitindo que cada um trabalhe no seu tempo.

Embora o trabalho na escola da Ponte seja hoje bastante reconhecido, estudado e admirado, não é uma fórmula, não pode ser copiado e não vale de nada, a não ser para provar que utopias são possíveis.

Yacoov é professor de uma universidade democrática em Israel, e durante suas apresentações também contou suas experiências e colocou que devemos pensar em ferramentas, mecanismos democráticos dentro da escola. Não podemos colocar um modelo, que é ideal e correto, para ele uma escola é democrática quando se questiona se é ou não democrática, e busca respostas, e têm em sua base os direitos humanos.

Yacoov contou sua trajetória de vida, e disse que quando estava na escola se sentia estúpido, pois todos sabiam mais que ele, e por conseqüência ele não suportava a escola. Seu olhar sobre a escola começou a mudar quando leu “Como amar uma criança” de Korczak, e dele passou para Tolstoi e Neill. Resolveu ir conhecer Summerhill, e conta que lá foi a primeira vez que viu crianças que amavam estudar e aprender, se surpreendeu com crianças que gostavam de matemática, e só com o tempo entendeu que as crianças aprendiam e amavam por que podiam escolher, não eram obrigadas.

De volta a Israel decidiu montar uma escola diferente, e a essa deu o nome de escola democrática, pois também sentiu necessário fazer algumas coisas opostas a Summerhill, conhecida como escola livre. Sua principal crítica a Neill era a separação das crianças de suas famílias e da comunidade.

Em 1987 abriu a primeira escola democrática em Israel, dez anos depois já existiam 26 escola que apostam nos mesmos princípios: formar pessoas para viverem em uma sociedade verdadeiramente democrática. Trata-se então de aproximar alunos e professores, compartilhando a gestão do conhecimento, e juntos definindo papéis de responsabilidade e liberdade. Defende uma educação pluralista, que respeite as diferenças e oferece oportunidade de conhecimento que vão além dos livros didáticos.

Para ele, o número de escolas democráticas pelo mundo atualmente deve se em torno de 500, e está crescendo rapidamente. A expansão do movimento conta com a ajuda da internet que facilitou o acesso às informações, e possibilitou maior contato entre as experiências em diversas partes do mundo.

Yacoov também acredita que por meio da educação é possível e simples de acabar com a violência, basta incentivar o ponto forte, as habilidades de cada um, e dar oportunidade para que isso seja colocado para a sociedade. Relatou uma aposta que fez com o ministro da educação de Israel, se responsabilizou pela escola mais violenta de Telavive e garantindo que poderia mudar o quadro em três anos. Yacoov cumpriu a aposta, em três anos acabou com a violência, mas a escola foi fechada pouco tempo depois, pois junto com a violência tinha caído o rendimento escolar dos estudantes. Essa história evidência uma importante questão: O que queremos da escola?

Continuando nossa busca por características da educação democrática recorreremos a Carolina Sumie, uma das sócias da Politeia. Para ela, a escola é democrática quando tem dois princípios básicos; as assembléias periódicas, e o respeito à liberdade individual, explica que nas escolas democráticas a relação com o conhecimento se baseia em que todos querem aprender sempre e que obrigar a alguém a aprender algo que ela não queira é desestimulá-la a aprender.

“Uma escola onde os alunos desenvolvem, definem, planejam, executam e avaliam projetos de seu interesse é democrática”, marca a importância de que os alunos sintam-se parte da escola, dando assim sentido a aprendizagem e as regras, conseqüentemente se os tornando mais responsáveis. É também parte do processo pensar a avaliação para além das notas.

A questão da participação das crianças em forma de assembléia, não só foi bastante discutida como também colocada em prática, já que todos os dias, os encontros começavam com uma assembléia dos participantes.

Como falávamos, a conferência é um lugar importante para troca de experiências, e muitas aqui do Brasil tiveram destaque, como por exemplo, o projeto de Bairro-Escola.

A Organização Não-Governamental Cidade Escola Aprendiz é um laboratório de pedagogia comunitária, que coloca em prática a proposta de bairro-escola. Trata-se de aproximar comunidade e educação, ampliando assim o espaço de aprendizagem; considera-se, então, a interação entre o ato de aprender com o de conhecer o entorno para intervir socialmente.

A Cidade Escola Aprendiz foi fundada em 1997 com um site na Internet cujo objetivo era disseminar termos relacionados à educação para a cidadania. Outras áreas do conhecimento foram sendo agregadas no decorrer do tempo, formando assim o mosaico que caracteriza a ONG atualmente.

A proposta parte do princípio que o indivíduo é produtor do conhecimento, portanto os currículos escolares deveriam ter significado na vida dos estudantes, para a ONG sem a participação da comunidade a escola não consegue adaptar-se as demandas da sociedade de hoje, que exige uma aprendizagem permanente.

Dentro deste projeto todos aprendem e todos ensinam, a proposta move-se pela parceria entre escola, família, poder público, empresários, associações, artesãos, ONGs e outras forças indispensáveis à educação comunitária.

A tarefa primordial é buscar o real significado do conhecimento, só compreendendo nossa própria motivação podemos enxergar a importância do outro, e assim assumir um papel na comunidade. O bairro escola ajuda a construir uma escola mais eficiente uma cidade mais acolhedora e humana.

Ponto básico dessa proposta é o respeito à diversidade, educador e seu aprendiz em pé de igualdade, produzindo juntos, conhecimento. A escuta e o diálogo são capazes de desenvolver a consciência crítica e o amor à liberdade.

Concluímos que é perfeitamente possível apontar a Educação Democrática como um movimento vivo e em constante redefinição, o que valida sua filosofia de avaliar o conhecimento como um processo de constante construção. Percebemos que esses encontros são marcos importantes para Educação Democrática, não só por que é uma possibilidade de expansão das idéias, mas principalmente por que é um momento valioso de troca e de inquietações. Sendo assim, fortalece idéias e constrói, com muitas mãos, um novo caminho.



Criada por: fernanda192 pontos . última modificação em: Sexta-feira 23 de Outubro, 2009 12:33:30 BRT por gabiyanez60 pontos .

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