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Educação e Economia Solidária por Helena Singer
1. Educação e Economia Solidária: valorização dos conhecimentos da comunidade para o desenvolvimento local
A educação promove e potencializa os princípios da economia solidária quando parte da idéia de que é possível aprender em qualquer lugar e com qualquer pessoa, não somente nem necessariamente no ambiente escolar. Projetos educativos se viabilizam em parceria com a escola ou com outros agentes locais – ONGs, ateliês, oficinas, museus, bibliotecas, mercados etc. O bairro, a vizinhança tornam-se assim parceiros nos processos de desenvolvimento de seus moradores. Para isso, seus agentes reconhecem, exercitam e desenvolvem uma função educadora, assumindo a intenção e responsabilidade pela formação, promoção e desenvolvimento de todos. Os estudos e projetos se realizam em comunidades de aprendizagem. Uma comunidade de aprendizagem se organiza sobre um projeto educativo e cultural próprio, cooperativo e solidário, baseado em um diagnóstico de seus potenciais e oportunidades. Trata-se de reconhecer saberes de pais, mães, velhos, jovens, trabalhadores, artesãos, artistas, de todos enfim, para a construção coletiva e prazerosa de um novo conhecimento e, com isso, potencializar o desenvolvimento humano e, ao mesmo tempo, o desenvolvimento local. A experiência destes velhos, trabalhadores e jovens é a aquela que Boaventura Sousa Santos descreveu como “desperdiçada” pela idéia de progresso. Este conhecimento é ativamente produzido como não existente, sendo sempre definido por sua negativa - a “não-escolarização”, o “analfabetismo”, a “ignorância”, a “inempregabilidade”. É um conhecimento que compõe fragmentos da experiência social. A saída está em fazer uma opção pela multiplicidade que se opõe a esta fragmentação, valorizando os conhecimentos da comunidade como ponto de partida para seu próprio desenvolvimento. As experiências educacionais baseadas na valorização dos conhecimentos da comunidade e a economia solidária constituem-se em alternativas à globalização neoliberal. Na dimensão ética, estes movimentos operam-se pela solidariedade. A solidariedade se opõe à lógica produtivista, que cria o improdutivo. Na dimensão política, a opção é pela participação, em oposição à lógica da classificação social, que cria o inferior. Em relação à dimensão estética, busca-se o prazer e a criatividade. E estas duas alternativas se potencializam quando se articulam. Como bem lembra Ladislau Dowbor, a geração de conhecimentos sobre a realidade local e a promoção de uma atitude pró-ativa para o desenvolvimento fazem parte de uma educação que pode se tornar o instrumento da transformação local. A idéia da educação para o desenvolvimento local está diretamente vinculada à necessidade de formar pessoas que participem de forma ativa das iniciativas capazes de transformar o seu entorno, de gerar dinâmicas construtivas. A educação deve possibilitar a construção dos conhecimentos necessários para transformar a realidade local, partindo da experiência concreta das pessoas com aquele lugar, passando pelos estudos sistemáticos desta realidade e caminhando no sentido do fortalecimento dos grupos locais de produção e prestação de serviço. 2. Tornar a cooperativa educativa: projetos educacionais em cooperativas Um segundo aspecto a ser trabalhado na articulação entre educação e economia solidária são os próprios projetos educativos das cooperativas e demais empreendimentos solidários. Na América Latina, estas iniciativas têm grande influência da obra de Paulo Freire. A partir dos anos 80, com a redemocratização do país, projetos educativos freirianos espalharam-se por programas de educação de jovens e adultos e também de formação para as alternativas de produção, como as organizações econômicas populares, as cooperativas e demais iniciativas que compõem a economia solidária. Um dos grandes desafios da educação de adultos é recuperar o gosto pelo conhecimento que, em geral, foi dissipado pela experiência anterior com escola daqueles que a abandonaram. Para isso, a experiência das escolas democráticas pode ser uma referência importante. 3. Tornar a escola democrática e solidária: a forma e a pedagogia cooperativas Uma escola é solidária na medida em que seu objetivo é oferecer aos educandos condições para que se tornem cidadãos: responsáveis por suas ações e capazes de determinar o curso e a dimensão de suas atividades; capazes de aprender diferentes ofícios, desenvolver talentos e se aprofundar em qualquer área do conhecimento humano; participantes ativos em todos os processos decisórios que envolvam a comunidade em que vivem; pessoas equilibradas; e, capazes de aprender com a diferença. Essas condições são experimentadas num ambiente multi-etário, não hierárquico, com a convivência das diferentes classes sociais, em que o conhecimento é tratado com respeito e como algo prazeroso e não como algo compartimentado e feito para impor disciplina. A) Nesta escola, todos que dela participam têm os mesmos direitos de decisão sobre o seu destino. Na dimensão de uma escola solidária, a divisão de responsabilidades, a escolha de educadores, o afastamento de qualquer membro e outras decisões que podem alterar a posição de cada um no coletivo sempre são tomadas em conjunto. Cada um é, neste sentido, responsável por si mas também pelos demais. Isso faz com que aumente o conhecimento mútuo dos participantes e a importância de seu inter-relacionamento afetivo. Em mais de um sentido, a escola democrática e solidária compartilha de características dos grupos familiares. A fronteira que separa a vida pessoal e íntima de cada um de seu envolvimento escolar é tênue, na medida em que a solução de problemas pessoais depende de decisões tomadas pelo coletivo. O verdadeiro aprendizado do comportamento solidário se dá com a prática, pois este só existe quando é recíproco. Trata-se de grande variedade de práticas de mediação e de tomadas coletivas de decisão, cuja vivência é indispensável para que todos possam aprender o que deles se espera e o que devem esperar dos outros. Os que se formam num meio em que prevalece a solidariedade vivem desde cedo situações definidas por comportamentos recíprocos de ajuda mútua. Aprendem que as pessoas diferem, mas que estas diferenças são positivas; que ninguém é tão forte que não precise do auxílio dos outros e que a união fortalece. São levados a perceber que a desigualdade não é natural e nem decorre da superioridade de quem manda sobre quem obedece. Que a desigualdade é ruim e injusta e que ela só pode ser abolida pela prática da solidariedade entre todos. Para o bom funcionamento da escola solidária, a união entre estudantes, educadores, funcionários e famílias é essencial. Neste ambiente, não há a supervisão e vigilância de bedéis e diretores, cuja missão, na escola tradicional é disciplinar o estudante. Na escola solidária, os conflitos são reconhecidos e encaminhados, não silenciados como “problemas de disciplina”. De forma geral, há uma inversão completa de situação quando alguém deixa de ser aluno (sem luz) em uma escola disciplinar e se torna educando em uma escola democrática e solidária. Enquanto aluno, suas escolhas eram extremamente limitadas, reduzidas quase sempre a cumprir ou não as tarefas que lhe eram impostas. A evolução do aprendizado, promoções ou repetências e muitas outras decisões que afetavam sua vida eram tomadas por superiores, por razões que, em geral, ele desconhecia. Quando se torna educando em um ambiente colaborativo de aprendizado, passa a ser membro dum coletivo, encarregado de tomar tais decisões. B) A segunda inversão completa da escola democrática acontece na organização do espaço ou na pedagogicidade da materialidade freiriana. Nas escolas democráticas observamos como a democracia rompe com a orientação panóptica que enfileira as carteiras de frente para a mesa do professor, na qual se propõe a não-comunicação entre os estudantes, e em seu lugar coloca o trabalho em grupo, seja nas mesas sextavadas ou redondas, seja na roda. A democracia também abre os portões, destranca as portas, disponibiliza os recursos, integra a escola com a rua. Torna público o que é público, dos livros da biblioteca à sala da diretoria, passando pelos computadores, materiais eletrônicos e qualquer outro tipo de recurso material. Por fim, sobre a gestão democrática do espaço, não podemos esquecer a importância das flores que adornam, da boniteza das salas de que fala Freire. Quando os recursos são de todos, todos cuidam. A democratização do espaço tem, ao menos, outras duas implicações importantes para a compreensão das conseqüências da democracia na gestão das escolas. De um lado, ela estimula a mudança dos papéis educador-estudante. Em roda, quando o estudante expõe suas experiências e reflexões, o educador escuta. Na sala com as mesas sextavadas ou circulares, quando os estudantes trabalham em grupos, o educador participa na medida em que é solicitado. Não mais aquele que professa um conhecimento diante de uma platéia passiva, mas sim aquele que escuta, aprende e orienta. De outro lado, a democratização do espaço estimula o auto-aprendizado e, provavelmente por isso mesmo, há tanta resistência a ela nos ambientes autoritários. Quando as portas das bibliotecas se abrem e os livros saem dos plásticos, os estudantes preferem ficar ali, onde têm autonomia sobre suas pesquisas, a permanecer em salas de aula tradicionais, em que são sujeitados à vontade do outro. Imagina-se o que acontece quando a escola tivesse computadores ou quadras de esportes sempre disponíveis. C) O terceiro elemento estruturador da escola democrática e solidária é a inclusão. De novo, trata-se de tornar público o que é público, dando acesso a absolutamente todas as pessoas que procuram a escola e também organizando-a para que todos efetivamente participem desta comunidade de aprendizado. Esta organização passa pela acessibilidade no espaço, pela formação continuada da equipe, a flexibilidade no tempo, a democratização do discurso mediante a diluição das fronteiras disciplinares e, talvez o mais importante, pela atitude de acolhimento e respeito e a criação de vínculos entre equipe e estudantes, vínculos que perduram mesmo depois que eles já saíram da escola. D) A solidariedade é também o elo que possibilita a produção do conhecimento. Os educandos conseguem realizar seus projetos usando a solidariedade como organizador coletivo da atividade escolar, ao somar seus saberes aos de educadores e das pessoas de sua comunidade, cada um com sua experiência de vida em áreas tão diversas como artes, ciências, filosofia, artesanato, línguas, humanidades e tantas outras. Assim, os saberes específicos e os genéricos constroem a sabedoria coletiva solidariamente. Ao se democratizar, a escola não só subverte os papéis de estudantes e educadores, como abre seus portões, abre-se para o mundo, trazendo pessoas da comunidade para desenvolverem projetos com os estudantes, promovendo trilhas educativas, intervenções no bairro, participação nas organizações comunitárias, projetos em economia solidária e parcerias com outras organizações que oferecem cursos de interesse dos estudantes ou que encaminham os jovens para que continuem estudando. Em seus potenciais e limites, a gestão democrática é capaz de transformar as escolas em projetos locais emancipatórios, alternativas à monocultura que é o sistema escolar, produtor do ignorante, improdutivo, inferior, residual, local. Ao fazer esta opção, a educação democrática legitima as experiências de conhecimento da comunidade e reconhece estudantes e educadores como iguais, membros de uma mesma comunidade que se co-responsabilizam por suas escolhas e pelo bem comum. A igualdade não é apenas uma escolha política, mas sim um pressuposto, uma visão sobre o ser humano. Quando a escola é democrática, o conhecimento produzido reflete o ambiente que o forjou. Em escolas democráticas do centro metropolitano, ressalta a multiplicidade de saberes e experiências compartilhadas. Com a abertura da escola para as riquezas da cidade, as crianças têm acesso a museus, campeonatos, sinfonias, músicas e danças de diversas partes do mundo, escritores e artistas consagrados, exposições de diversos tipos, artes marciais, saberes orientais, saberes científicos como a cartografia, a astrologia e a física, estudos sobre os processos migratórios, os sistemas de governo e a história mundial. Em escolas rurais, seja de educação infantil ou EJA, os saberes da comunidade finalmente encontram lugar no ambiente escolar e ali se encontram também com saberes científicos. Assim, os estudantes primeiro reconhecem sua capacidade para gerir suas vidas, depois recuperam as histórias de suas comunidades e aprendem com pesquisadores como levantar e analisar dados a este respeito. Ensinam e aprendem com agricultores e ambientalistas os procedimentos de conservação, manejo, cultivo e produção agrícola. Resgatam os saberes locais sobre as propriedades curativas das plantas. Também ensinam e aprendem com adestradores, cavaleiros, retireiros e campeiros sobre as características e formas de criação e tratamento dos animais. Com artistas da região, coletam argila e fazem esculturas, cantam e dançam músicas tradicionais, que convivem com as músicas da moda. A cabeleireira do bairro entra na escola para ensinar hábitos de higiene e saúde, as mães vêm ensinar a culinária. Os marceneiros e pedreiros vêem seus conhecimentos para estimar medidas e projetar recuperados como ponto de partida para o aprendizado dos cálculos formais e seus registros. Na escola da periferia urbana, a sua abertura para a comunidade possibilita aos estudantes participarem de projetos de intervenção urbana e manifestações de rua, conhecerem organizações locais, irem a saraus de poesia, exposições de arte, parques, encontros, feiras, realizarem projetos sociais em outras organizações e montarem cooperativas. Traz para dentro da escola oficinas de hip hop, teatro, leitura e libras, cursos sobre promoção da saúde, preservação do meio-ambiente, empreendedorismo e matemática financeira, bem como propostas políticas de candidatos de diversos partidos. 4. Os Desafios do Caminho da Emancipação No acompanhamento do dia-a-dia escolar e das trajetórias dos estudantes em escolas democráticas, notamos que, com o tempo, adultos e crianças aprendem a manter sua opinião mesmo diante de outras, enfrentam situações ameaçadoras, colocam-se nos grupos, resolvem seus conflitos por conta própria. A auto-confiança mostra-se, assim, elemento fundamental no caminho da emancipação. O outro elemento chave do caminho da emancipação é o prazer do conhecimento. Observamos que, em muitas situações, ao contrário do que se poderia supor quando se imagina crianças em um ambiente de liberdade, elas escolhem estudar, participar de projetos, ficar mais tempo na escola. Mas, também observamos que as crianças tendem a permanecer na atividade que estão fazendo se esta lhes está agradando, seja uma brincadeira, um estudo individual ou um projeto. Assim sendo, um dos papéis assumidos pelos educadores nas escolas democráticas é chamar a atenção das crianças para outras possibilidades, convidá-las a participar de atividades que se iniciam com o grupo. No caso dos adultos, o prazer do conhecimento também aparece com muita força. Os estudantes ressaltam a diferença entre o clima de uma escola que se constitui democraticamente como comunidade de aprendizado, na qual as pessoas se dedicam com prazer aos estudos, e o clima das escolas autoritárias, onde a apatia, o desrespeito e a violência dominam. Em escolas em processo de democratização é evidente a diferença no que se refere à motivação, ao engajamento e ao prazer entre os espaços da escola onde a liberdade de exploração do conhecimento já foi conquistada – a biblioteca, os computadores, as salas de aula que se convertem em rodas – e os espaços que se mantém no formato disciplinar, as salas de aula marcadas pelo ensino burocrático e a apatia dos estudantes. Ainda no que se refere ao prazer do conhecimento, é importante assinalar que ele não é observado apenas no desenvolvimento dos projetos organizados pelas escolas, mas também nas brincadeiras, nas conversas, nas instâncias de decisão, nas pesquisas de iniciativa dos estudantes nos jardins, bibliotecas e computadores das escolas. Nestes contextos, o prazer do conhecimento acontece na sua tranqüilidade e harmonia e também na excitação das descobertas e da superação de desafios. A “mágica” do aprendizado, aqueles momentos em que um menino consegue em uma semana aprender determinado aspecto da matemática que o torturara durante anos em uma escola disciplinar, ou que outro até então aparentemente desinteressado da leitura e da escrita começa finalmente a soletrar, ou que a empresária descobre o prazer de ensinar - momentos assim são marcados pela liberdade e pela superação de desafios. Aspecto especialmente significativo da liberdade vivida nas escolas democráticas é a do trânsito e da gestão do tempo. A partir de um foco de interesse maior, os estudantes organizam suas rotinas na escola e desenham suas trajetórias. Assim, o auto-aprendizado se constitui, ao lado da auto-confiança e do prazer do conhecimento, no terceiro elemento fundamental do processo de emancipação. É a aprendizagem que faz o caminho, não um currículo anterior, exterior e superior. Mas, os caminhos do aprendizado não são retos e livres obstáculos. Porque a emancipação é, ao mesmo tempo, um pressuposto e um ponto de chegada, as dúvidas, inseguranças e crises aparecem. Os estudantes de todas as idades, em vários momentos, demonstram desejar que sua vontade seja subordinada, que alguém decida por eles. Nestes momentos, os educadores assumem o papel do “mestre ignorante” descrito por Jacques Rancière que busca fazer com que o aprendiz realize a sua potência, partindo de sua própria vontade. Praticando-se em suas escolhas, os estudantes conquistam a emancipação. Com a vontade no centro do processo, a cognição é corporificada. As pessoas precisam mover-se, mobilizar-se para aprender. Daí a liberdade de trânsito, o acesso aos espaços e dos recursos, a variedade de opções disponibilizadas. A expressão é livre, os processos são singulares, a imaginação é a anfitriã na aventura encantada do conhecimento.
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