Projeto de Gente

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti, Elza Reis e Marcio França
Associação Projeto de Gente (CNPJ – 05.959.844/0001-88).
Alexandre e Elza são sócios idealizadores, fundadores e coordenadores do projeto e Marcio é sócio e coordenador da Associação



Durante a IDEC 2007, foram exibidas fotos do Projeto de Gente em Cumuruxatiba (BA) - http://oprojetodegente.blogspot.com


1) Quais os antecedentes que influenciaram a implantação desse projeto educacional (experiência prévia e processos que já estavam em andamento)?

Nossa proposta nasceu na prática de, pelo menos, 24 anos de atendimento a pessoas, do clínico geral, médico homeopata e psicoterapeuta Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti. Ao longo deste tempo ficou evidente, para ele, uma profunda insuficiência do modelo de saúde em promover um estado de bem estar realmente integral. Convidou, então, um grupo de amigos, profissionais de diferentes áreas mas com semelhante anseio, para discutir sobre como buscar esta possibilidade. Formou-se, assim, o grupo de trabalho responsável pela elaboração inicial do Projeto de Gente e que também gerou a criação da Associação Projeto de Gente.

Estas pessoas passaram a realizar encontros semanais com o intuito de elaborar e implantar um método de trabalho no qual se contemple uma aparentemente simples, porém básica, constatação: o estado de bem estar é percebido quando estamos bem “internamente”, isto é, quando a pessoa se sente bem consigo mesma, saciada em relação às necessidades básicas pessoais.

Uma conclusão aparentemente óbvia, não fosse a dificuldade que cada um de nós tem em reconhecer quais são essas necessidades, pois nascemos sem nada saber a respeito de nós mesmos; isto é, não temos consciência de quem somos. Além disso, se não sabemos quem somos, também aqueles que nos recebem e nos rodeiam, tampouco nos conhecem. Esta é a tremenda vivência a que estamos expostos ao nascer: não nos sabemos e ninguém sabe quem somos.

Esta observação – “estou bem quando estou bem comigo mesmo” -, embora simples, é extremamente delicada e de complexa organização, pois, estar bem consigo mesmo, eqüivale estar saciado nas necessidades pessoais básicas, mas também implica estar assegurado quanto a possibilidade de reconhecer, serena e claramente, tais necessidades; e jamais devemos esquecer que nossas necessidades básicas se expressam, indistintamente, tanto no campo emocional quanto no físico.

De fato, para nos sentirmos realmente bem será preciso perceber que somos uma unidade dinâmica: corpo (físico - visível) e alma (psique, mente - invisível), corpo-alma, corpoalma.

Alguém impedido de alcançar uma fonte alimentar básica para sua existência vai, inevitavelmente, apresentar sintomas de carência deste elemento. Por exemplo, se lhe falta água, os sinais de desidratação aparecerão sem dúvida.

Se do ponto de vista objetivo isto salta à vista, com a mesma clareza podemos refletir a respeito do invisível mundo de nossa sensibilidade. Se não reconhecemos e atendemos nossas necessidades emocionais essenciais – completamente pessoais - iremos, também sem dúvida, manifestar sinais. Sinais que ficarão claros em ações confusas e numa angustiada e sofrida expressão do ser em sua relação cotidiana com o mundo.

Tais necessidades emocionais – nem boas nem más - são, podemos dizer, nossa identidade e nossa intimidade: nossa Individuação, nossa singularidade. Uma sensibilidade que, embora com conteúdos compartilhados com todos os demais seres humanos, é, em seu arranjo final, absolutamente única, pessoal. O que estamos dizendo é que, assim como somos constituídos das mesmas substâncias – glicose, glóbulos vermelhos, sódio e potássio, por exemplo – e ninguém as tem organizadas da mesma maneira (uma impossibilidade estatística), o mesmo acontece em relação ao mundo das emoções e sensibilidades. Todos possuímos as mesmas – medo, insegurança, alegria, tristeza, por exemplo – mas, também aqui, as organizamos de um modo único (ninguém sente medo como o outro o sente).

O psicólogo James Hillman sintetizou, de modo simples e claro:

”...para se entender a vida humana (não podemos) omitir algo essencial: a particularidade que você sente que é você.” (em “O Código do Ser”)

Entre os seres humanos o conhecimento desta singularidade – já que não o temos de antemão - é alcançado através das experiências que o cotidiano nos oferece.

Este projeto de trabalho chama atenção para a imensa responsabilidade dos adultos, que devem oferecer campo adequado para que suas crianças tenham a mais ampla possibilidade de conhecer e respeitar a si próprias; possibilitando, portanto, o reconhecimento do amor-próprio – a própria individuação - e a construção de uma serena auto-estima, bases para o exercício do respeito ao outro e do direito de ser singular e incluído socialmente.

O desenvolvimento de uma individuação sadia gera exatamente o contrário de um movimento egoísta, individualista (daí a importância de usarmos o termo individuação), sendo, portanto, base também para a construção de uma sociedade sem preconceitos, serena, progressivamente evoluída e saudável - podemos dizer, em um sentido mais abrangente.

Queremos, portanto, sublinhar um ângulo, para nós fundamental, em relação ao amplo problema do desenvolvimento e integração de nossas crianças e jovens à uma vida ativa e plena: o freqüente desinteresse, e eventual desprezo, por sua Individuação.

Pois bem, com o aprofundamento dessas e outras questões, o grupo atraiu adeptos e cresceu. Todos tinham, agora, uma certeza: o estado de se sentir bem consigo mesmo deve ser trabalhado desde a mais tenra idade, com a criança, com os pequeninos ou, se quiserem, com os pequeninos projetos de gente.

A escola é, por excelência, um lugar de conhecimento, de expansão do conhecimento. Porém, não apenas conhecimento acadêmico, não apenas conhecimento do outro; deveria ser também – entretanto não é - espaço de auto-conhecimento, de afirmação e reafirmação de valores pessoais, próprios e legítimos, e que irão se organizar junto aos valores também legítimos e pessoais do outro.

Assim, ficou claro que o cenário ideal para a concretização desse objetivo é uma escola que contemplasse, em seu contexto mais profundo, a atenção às necessidades básicas de qualquer criança, de qualquer pessoa, incluindo, de maneira clara, o direito de se reconhecer e ser reconhecido; enfim, o direito a ser quem se é verdadeiramente.

Fica também claramente evidenciado que esta escola é um lugar de saúde, saúde em sua manifestação mais integral e plena. Aliás, a este respeito disse o médico e educador polonês Janusz Korczak: “Sem uma infância serena, toda a vida, em seguida, é apenas uma enfermidade.”


2) Quais os traços mais marcantes do contexto em que a instituição realiza seu projeto educacional (localização, aspectos de renda, habitação, transporte, serviços públicos, práticas educacionais, associativas e outras características)?

A necessidade de se organizar um campo de sustentação compromissado com as necessidades integrais das crianças existe em todos os bairros de todas as cidades deste país. Assim, esta proposta de trabalho pode encontrar porto seguro em inumeráveis centros, urbanos ou rurais.

Quanto aos aspectos ligados à renda, critérios de vagas e mensalidade: este item é de grande importância na organização dos propósitos da Escola Projeto de Gente, pois coloca um conceito basilar do projeto – o da aceitação integral da diversidade humana, isto é, a escola não discriminará qualquer criança por qualquer motivo (embora, com humildade verdadeira, possa aceitar eventuais limitações em sua capacidade de bem cuidar).

Na busca da construção de uma estrutura equânime e, justo por isto, exigindo profunda responsabilidade de todos os envolvidos, a escola adotará o seguinte critério: será estabelecido um teto para a mensalidade escolar, porém os responsáveis pelo pagamento da mensalidade acordarão com a escola o efetivo valor a ser pago. Portanto, não existindo um piso pré-estabelecido, todos pagarão um certo valor que será exatamente ajustado à realidade de cada família ou responsável.

Também é preciso que fique perfeitamente claro que os recursos advindos de doações de empresas e pessoas físicas interessadas em colaborar serão destinados à formação de um fundo que atenderá a cerca de 80% de estudantes com bolsa escolar – com valores variados – que freqüentarão esta escola.

Uma atitude reorganizadora de nossa disparatada estrutura social pede (1) o intercâmbio dos construtores deste cenário guetificado – um dos propósitos do projeto – e, além disso, pede também (2) a atenção para a importância de critérios firmes de Inclusão e Responsabilidade Social.


3) Que condutas, atributos, objetivos ou resultados atingidos pela instituição têm alguma afinidade com ideais de educação democrática?
4) São promovidas atividades que incentivam a autonomia de estudantes e docentes na construção de projetos educativos (formais ou informais)?

Esperando alcançar maior clareza e profundidade, construímos uma resposta única para estas duas questões.

Foi no pensamento de Samuel Hahnemamm – criador da Homeopatia; no trabalho de Carl Gustav Jung e de D. Winnicott; nos estudos e teses defendidas pelo Prof. James Hillmann; na Pedagogia de Paulo Freire; na experiência da Escola da Ponte, em Portugal – dirigida pelo educador José Pacheco e apresentada a nós pelo brasileiro Rubem Alves; nas práticas modernas de terapia energética (Wilhelm Reich, David Boadella, por exemplo) e na estrutura do antigo Santuário da Saúde de Esculápio, em Epidauro, que a Escola Projeto de Gente, a princípio, encontrou sustentação teórica, filosófica e prática.

Ao longo da elaboração do projeto, descobrimos a estrutura que se revelou, para nós, como a mais afinada com as nossas idéias: as Escolas Democráticas ou a Pedagogia Libertária.

A Escola Projeto de Gente oferecerá ensino formal, inicialmente, para cerca de 32 crianças a partir de 2 anos de idade (a questão etária no âmbito da Educação Democrática é um tema relativo dada a possibilidade de escolha individual do percurso acadêmico por parte do estudante), com base em uma gestão democrática, em que educadores, educandos, pais e mães, funcionários da escola e pessoas diretamente ligadas ao seu funcionamento irão compartilhar as responsabilidades pela comunidade escolar.

A Escola Projeto de Gente, à medida que se consolida, propõe desenvolver-se em duas direções:

1 - Pretende criar uma estrutura de sustentação para crianças absolutamente sem campo de mater-paternagem, ou seja, crianças órfãs – a República das Crianças Janus Korczak. Quando se fala em inclusão, via de regra, pouca referência se faz a estas crianças, como se seus problemas estivessem resolvidos, ou pudessem ser resolvidos, por instituições específicas – os orfanatos – ou pela acolhida por parentes próximos. Entretanto, no primeiro caso, estes pequenos são criados apenas tendo à sua volta outros órfãos. Esta circunstância, embora freqüentemente carinhosa e acolhedora, forma um ambiente de isolamento, e mesmo segregação.

As crianças da República das Crianças Janus Korczak estudarão na Escola Projeto de Gente, interagindo com crianças sem a experiência da orfandade - incluindo os, muito comuns, fins de semanas em casas de amigos (lá e cá).

2 - Berçário

3 – Estender o projeto para pessoas com idade e interesses compatíveis com projetos de estudos relacionados ao Ensino Médio.

É importante reforçar que uma gestão democrática realmente efetiva, necessita de alguns pontos básicos de sustentação, a saber:

1) o acesso às informações deve ser igual para todos, para que as decisões sejam tomadas de forma colegiada, através das assembléias, isto é, a estrutura organizacional não se dá através da tradicional estrutura piramidal, onde algumas instâncias detêm mais informações e, portanto, poder; 2) a rotatividade dos cargos deve ser garantida – sempre através do voto dos membros da comunidade - para que não se corra o risco da criação de estruturas centralizadores e, eventualmente, empobrecedoras; 3) os grupos de trabalho devem ser pequenos para garantir a participação de todos; e 4) a garantia da reversibilidade das decisões, isto é, as decisões das assembléias são sempre passíveis de revisão e reajustes através de novos debates e votações.

As atividades com as crianças serão organizadas em tempo integral (7h30 às 17h30) e estarão – com a escola plenamente desenvolvida - distribuídas em 4 núcleos básicos (com função apenas organizadora, não determinista) coordenados por profissionais, cujo número será estipulado pela natureza do trabalho a ser desenvolvido e pelo número de crianças a ser atendido.

Os estudantes com idade até 7 anos e seus pais poderão optar por ciclos de três a dez horas por dia; os demais educandos e seus pais poderão optar por quatro a dez horas por dia, sendo que, para estes, será respeitado o mínimo de 75% de freqüência em duzentos dias letivos.

De acordo com a deliberação CEE 10/97, são consideradas horas de efetivo trabalho escolar – para além das atividades de sala de aula – as realizadas em outros recintos, compreendendo trabalhos práticos ou teóricos, leituras, pesquisas e trabalhos em grupo, estudos sobre a natureza e as atividades humanas, desenvolvimento cultural, artístico, corporal e tudo o mais que seja necessário à melhor formação do educando, com a responsável orientação da escola, através de pessoal habilitado e competente.

A seguir, uma sucinta descrição dos quatro campos organizacionais das atividades. Nestes campos organizam-se os conteúdos dos Parâmetros Curriculares Nacionais, porém, funcionam como uma referência organizadora de saberes e conhecimentos, não engessando o caminho de aprendizado das crianças. Este caminho será construído como um mosaico, como veremos adiante.

Tendo em seu cerne a observação atenta à Individuação da criança, nesta escola, todos os quatro campos terão igual importância. Provavelmente, por variados motivos (interesse das crianças, falta de espaço físico, recursos humanos e financeiros disponíveis), alguns deles serão viabilizados já na implantação, enquanto outros serão conquistados ao longo do desenvolvimento do projeto.

Os campos:

1- Campo Organizacional das Ciências e Línguas: as crianças serão convidadas, por exemplo, a realizar pesquisas em variadas fontes (livros, internet, muros da cidade, etc), individualmente ou em grupo, sob a constante supervisão dos educadores, que assim poderão aprofundar os conteúdos pedagógicos, propor linhas de estudo, dar aulas diretas; outros alunos poderão organizar grupos e combinar temas de estudos pelos quais tenham interesse (e que também serão aproveitados pela equipe no sentido de estabelecer correlações com os conteúdos pedagógicos indispensáveis ao aluno em sua caminhada de construção do conhecimento); os educadores serão instrumentos de estímulo circulando pelos grupos e entre as crianças; será sempre realçada a possibilidade de se aprender de forma lúdica e solidária, afinal, um convite ao prazer de aprender. Compõem este campo:

Campo da Informática: além da introdução à informática, haverá o estímulo às discussões sobre a dinâmica da informação e as complexas questões ligadas à rede de computadores – respeitados, evidentemente, o grau de discernimento das variadas faixas etárias;
Campo da Ecologia e Meio Ambiente: dedicado a um movimento de ampliação de consciência e valorização da vida em qualquer de suas manifestações; neste campo poderá se organizar aprendizado, junto ao que denominamos natureza, através de passeios, jardinagem e horta, por exemplo.
Campo da Culinária: o aconchegante e alquímico espaço da cozinha será o cenário de lições sobre como cuidar da boa nutrição e a luta contra o desperdício; belo local para exercício de autonomia e compartilhamento.

2- Campo Organizacional das Artes: através do exercício da criatividade, também do prazer, uma gama imensa de conhecimentos e saberes se fazem. Compõem este campo:

Campo da Leitura, Poesia e Prosa: leitura e criação de textos;
Campo do Teatro: encenação de textos clássicos, populares ou criados pelo próprio grupo, além do estímulo à arte de contar histórias;
Campo das Artes Plásticas: expressão através do desenho, pintura, escultura, etc;
Campo da Música e do Canto: “Todas as coisas e todos os seres produzem sons de acordo com sua própria natureza e com o estado particular em que se encontram”. Essa citação foi feita pelo Lama budista Govinda e achamo-la mais que suficiente para explicar o campo organizacional da música nesta escola sempre ocupada com a atenção à Individuação de suas crianças.

3- Campo Organizacional do Corpo em Movimento: atenção às manifestações do corpo e estímulo à consciência corporal. Neste campo estarão incluídos:

Campo da Dança: "Há pontos em comum que se conectam em todas as classes sociais e em todos os povos. A diversidade cultural está enraizada em cada um de nós e, quando unimos extremos no palco, o resultado surpreende e aí percebemos que todas as possibilidades estão dentro de cada um e que a interação existe", explica Ivaldo Bertazzo.
Campo dos Esportes: futebol, vôlei, tênis, natação, judô, capoeira, etc (o espaço aberto por este campo é amplo e favorecedor de alternativas menos usuais como: tai-chi-chuan, xadrez e outros. Realce aos aspectos filosóficos dos esportes, observação sobre o tema da competitividade, da colaboração, o aspecto psicomotor, etc

4- Campo Organizacional do Fazer Nada: valorização do velho e bom recreio, espaço de liberdade e criatividade, momento de puro lazer, do puro brincar, enfim, momento de pureza e de livre expressão. Esse campo será responsável por sugerir e organizar passeios e visitas a museus, espaços públicos, etc.

Certos ambientes da escola poderão ter múltiplas funções, ora servindo como espaço de contar histórias, cantar ou poetar, ora como espaço de estudos e pesquisas. As parcerias com academias esportivas, clubes e escolas serão bem-vindas, para a utilização de quadras de esporte, piscinas, anfiteatros, etc. Os espaços adequados para lanches e refeições estão previstos.

As funções dos profissionais (educadores e mestres) de cada núcleo são:

1) Oferecer conhecimento específico;
2) Observar a criança durante suas atividades, considerando, além de sua aptidão e desenvolvimento, sua maneira de reagir às circunstâncias que a rodeiam, como ela encara seus erros e acertos, como aceita ajuda e “toques”, sua tranqüilidade, inquietude, raiva, prazer ou medo ao participar de jogos e trabalhos individuais ou em grupos, etc; e
3) Organizar relatos periódicos destas observações.

Encontros formais, informais e atividades conjuntas de vários campos, melhor dizendo, entre todos os trabalhadores da escola, serão realizados propiciando o espaço para troca destas observações. Deste modo, questões levantadas pela natural atenção de um componente terão a chance de serem complementadas pela observação de outro que – por ser outro – poderá identificar um diferente aspecto daquela criança. O ganho será imenso para a criança atendida, já que a complexa estrutura de cada um poderá, com mais chance, ser percebida, valorizada e integrada numa compreensão mais ampla.

Os profissionais do projeto terão contato com estas questões através de treinamentos e conversas constantes sobre os temas conceituais e as intenções e funções de suas observações.

É importante salientar que esta demanda não exige formação psicoterapêutica por parte de todos os profissionais envolvidos no projeto.

Um dos sentidos do verbo grego do qual deriva a palavra terapia é “servir, cuidar”. Deste conceito sim não abrimos mão, cada trabalhador do projeto estará se esforçando para vivê-lo sempre e sempre mais integralmente.

Além disto, a palavra cuidado tem uma de suas possíveis raízes no latim coera, que significa “cura”, mas não simplesmente cura. Indicava cura alcançada através de cuidado amoroso. Amoroso cuidado: esta é a essência do trabalho terapêutico... e também a própria essência da Escola Projeto de Gente.

Neste sentido, podemos considerar os trabalhadores da escola como terapeutas, pois estarão cuidando das crianças com profunda atenção e absoluto respeito, mas não necessariamente psicoterapeutas. Serão pessoas em constante atitude de desvelo, interesse e envolvimento para com cada criança. Esta é a exigência fundamental feita a cada participante e o pré-requisito necessário é a mais ampla disponibilidade para exercê-la. Para o aprimoramento destes conteúdos serão realizados constantes exercícios de capacitação através de debates, palestras e discussões para que cada um possa ter, como já dito, total conhecimento das motivações e propósitos do projeto.

Na Escola Projeto de Gente todos os Educadores são orientadores de todos os alunos, isto é circulam pelos grupos atendendo as necessidades comuns e encaminhando as específicas. Deste modo, todos terão contato com todas as crianças e poderão, portanto, colaborar (no mais real sentido de co-laboração – laborar junto) na atenção à Individuação, trocando observações com seus colegas.

Entretanto, para que se assegure o desenvolvimento – pessoal e pedagógico - de cada educando, o educador será responsável por um grupo de crianças. A proporção será de, idealmente, 8 a, no máximo, 12 crianças para 1 educador. Este educador terá, pelo menos, dois encontros semanais – mesmo que informais (de fato, esta a preferência) - com cada um destes alunos.

Na medida que se perceba o interesse específico de uma criança (por exemplo: um tema de Literatura ou na área da Matemática) o educador elaborará – em comum acordo com a própria criança - um projeto de trabalho para seu aprendizado. Além disso, o educador poderá convidar uma pessoa capacitada neste campo. Estes são os Mestres, que desenvolverão um projeto específico para estes estudantes. Estes mestres poderão fazer parte de um banco de voluntários – vale ressaltar o absoluto comprometimento que será pedido deste voluntário para com as crianças – ou remunerados pelo tempo do projeto. São pessoas com particular interesse, cuidado e paixão por certo saber, que se dedicam a um ramo de atividade, que têm habilidade ou prática especial e compartilham seus saberes – seu conhecimento teórico, seu saber fazer, seu saber ser - com os estudantes. Garante-se, desta forma, uma importante expressão de diversidade de competências e saberes, mesmo que não referendados pelas instituições acadêmicas tradicionais.

Outra função de grande importância será exercida pelos Educadores Pedagógicos – 2 para cada grupo de 16 crianças. Eles serão responsáveis, sempre junto com os educadores, mestres e estudantes, pela organização do Mosaico do Conhecimento.

O Mosaico do Conhecimento*: Existe, sem dúvida, um determinado quantum de conhecimento formal considerado fundamental para que alguém possa manifestar-se, pessoal e socialmente, de modo mais pleno em certa área do saber. Entretanto, o percurso a ser percorrido por cada um na aquisição destes conhecimentos pode, e deve, ser acordado com seus interesses. Como exemplo, simples mas importante : através do interesse pela construção de um aeromodelo, ou um balão de ar quente, uma criança pode aprender a ler e escrever, enquanto outra – que já sabe ler – estará aprendendo temas da Matemática, Geometria ou Física.

O Mosaico, desenvolvido pelo estudante, pelo educador e por um eventual mestre, mostra, em uma folha de papel, o caminho percorrido pelo estudante na aquisição do conhecimento – o que inclui os itens constantes nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Um desenho particular e revelador dos interesses desta pessoa. Particular, porém, construído coletivamente e em interação possível com as peças do Mosaico de outros meninos e meninas; assim, reflete também o percurso de aprendizagem e experiência dos membros da comunidade envolvidos no projeto. Cria-se, deste modo, uma proposta pedagógica pessoal, porém cooperativa e não segmentada.

No Mosaico não cabem as divisões habituais das disciplinas, em níveis ou em cursos que, freqüentemente, determinam a formação de retalhos desconexos – promovendo a constante reclamação do estudante de que ele não sabe para que está estudando aquela coisa -; ao contrário, esta forma de gestão de conhecimento produz uma organização dos saberes sem separações e com possibilidade de reorganização permanente.

Vale salientar que o Mosaico não é transdisciplinar, nem pluridisciplinar (um mesmo tema estudado por várias disciplinas) ou interdisciplinar (quando métodos são transferidos de uma disciplina para outra); entretanto, não descarta as disciplinas. Apenas as percebe como pedras do Mosaico, pedras que contêm em si outras pedrinhas – outros mosaicos -, isto é, outros saberes que serão explorados à medida do interesse do estudante e que não se encerram em si mesmos.
(*) Ver, em Apêndices: O Mosaico do Conhecimento

Do mesmo modo será organizado o Mosaico da Pessoa*: o colorido desenho da criança que vai, dia a dia, revelando-se em sua sensibilidade própria para quem quiser, de verdade, vê-la. Este trabalho será realizado com a colaboração de todos os trabalhadores da escola, e não apenas do educador responsável por uma criança, embora este seja aquele que se compromete a registrar – e partilhar - o resultado das observações.
(*) Ver, em Apêndices: O Mosaico da Pessoa

A avaliação dos estudantes: um ponto especialmente importante, pois tradicionalmente somos treinados a obter resultados, perfomances, a “se dar bem na prova” e não a sentir o prazer de adquirir o conhecimento pura e simplesmente. Somos acostumados a nos guiar pela média (de fato, estimulados a estar sempre acima) e, uma vez alcançada, relaxar. “Passou” de ano. Se “passou” direto, os conteúdos do fim de ano podem inclusive ser desprezados, pois não importam mais para compor a tal média. Também somos treinados a ter respostas rápidas (afinal a prova tem que ser entregue em um tempo absolutamente determinado), a “pular” as perguntas difíceis para conseguir logo os pontos necessários para “passar” de ano. Mas, e se uma questão “difícil” for muito interessante e mesmo importante? E na vida cotidiana? Podemos “pular” as questões difíceis?

A avaliação dos educandos na Escola Projeto de Gente será feita de várias formas. Em primeiro lugar através da observação cuidadosa e respeitosa de cada estudante quanto à sua Individuação. Média não é a determinante - mesmo porque uma pessoa com “desempenho” médio, ou abaixo da média, em matemática pode ser um belo escritor ou desenhista ou poeta ou cozinheiro ou motorista ou filósofo ou marceneiro ou surfista ou cineasta ou atleta ou professor de física quântica, ou qualquer belo Ser.

Quanto aos conhecimentos específicos, estes serão naturalmente observados e avaliados de acordo com o nível em que se encontra cada educando e seu grupo. Enquanto os estudantes ainda não sabem ler e escrever a avaliação será realizada através da observação informal do trabalho produzido.

À medida que avançam em autonomia – um dos objetivos da Escola - podem elaborar, sempre com a supervisão do educador, o seu plano de estudos (onde planificam o trabalho e, de fato, se comprometem a cumprir estes objetivos). Neste ponto, passa a existir a principal alternativa para o educando - e seus orientadores - aferir seus conhecimentos: a auto-avaliação. Este procedimento é de imensa importância tanto na construção de autonomia quanto no exercício, por parte do educando, de pedir – e receber – ajuda.

No início do ano letivo será realizada a Assembléia da Escola, constituída pela totalidade dos educandos, educadores, mestres, funcionários, pais, mães e pessoas diretamente ligadas ao empreendimento e que dela desejem participar. Cada um será co-participante, com sua idade e possibilidade de discriminação, na preparação dos projetos de trabalho, da organização interna da escola, decidindo democraticamente quais os Direitos e Deveres que consideram fundamentais e que serão seguidos por toda a comunidade. É o fórum deliberativo por excelência da Escola Projeto de Gente. As Assembléias serão realizadas ao início e final de cada semestre; mas, Debates, isto é, espaços menos formais que uma Assembléia, para debates e avaliação do andamento da Escola, acontecerão quinzenalmente (ambos – assembléia e debate - podem, naturalmente, ser necessários em caráter extraordinário).

Também na Assembléia serão organizados os Grupos de Responsabilidade, constituídos por estudantes, educadores, mestres e funcionários, que manterão em ordem determinados setores da escola (por exemplo: administração, manutenção, limpeza básica, lixo seletivo, biblioteca, material artístico e esportivo, mural, jornal, equipe consultiva – que recebe queixas, pedidos, solicita e organiza debates e Assembléias, etc.). Seus componentes se revezarão nessas atividades ao longo do ano – em certos grupos será possível e necessário que algumas pessoas se mantenham fixas por tempo maior que em outros para melhor cumprimento das demandas do Grupo. Estes grupos têm a função de agilizar as questões do cotidiano. Suas decisões serão sempre apresentadas nas assembléias, debates e rodas e por elas referendadas.

Para alimentar as Assembléias e debates existe o Grupo Organizacional, que tem por função debater e sugerir soluções para eventuais problemas e para o desenvolvimento natural da escola. Este grupo será formado pelos educadores, estudantes, mestres, pais, mães, investidores financeiros, funcionários, aliados estratégicos e eventuais convidados em alguma área específica. O Grupo Organizacional não tem caráter deliberativo sob nenhuma hipótese e se reunirá, pelo menos, 2 vezes por semestre.

Diariamente, a comunidade escolar reúne-se em uma atividade denominada Roda, oportunidade em que se resolverão eventuais conflitos, circunstâncias do cotidiano que demandam respostas rápidas, etc....

Haverá, na escola, um Espaço de Atendimento aos Responsáveis (na verdade, uma extensão organizada do convite à cotidiana participação) com possibilidade de encontros regulares, incluindo a possibilidade de prática psicoterapêutica (individual, familiar ou em grupo) junto aos responsáveis pelas crianças. Isto possibilitará oportunidade de eventual reorganização na estrutura de vida destes adultos; além, é claro, dos ganhos naturais para os meninos e meninas acompanhados por estas pessoas.

É com esta concepção de produção coletiva e gestão democrática do conhecimento que a Escola Projeto de Gente – apoiada na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996, que introduziu o sistema de ciclos e de progressão continuada - abrangerá a totalidade da base estabelecida pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, lançados em 1998; além de, de certo modo prioritariamente, criar um campo de atenção e cuidado para o livre desenvolvimento da criança em direção a ela mesma.

OBS: Acrescentamos, ao fim do questionário, um Apêndice que pode – esperamos – trazer informações, talvez mais de caráter subjetivo porém, para nós do Projeto de Gente, tão fundamentais quanto as questões da ordem dita mais objetiva.


5) Quais os principais traços, do contexto ou externos, que são favoráveis à continuidade e aprimoramento do projeto?

Em síntese: para nós, faltam os recursos para a implantação da escola e a prática cotidiana para responder à questão formulada.

6) Quais são as principais dificuldades à realização do projeto educacional?

No momento, é, justamente, o levantamento de recursos financeiros para as demandas necessárias à abertura da escola (pagamento de pessoal, aluguel do espaço, mobiliário, alimentos, etc, etc e etc) e implementação do Projeto de Gente.


7) Como as dificuldades foram enfrentadas e talvez superadas?

Até agora as dificuldades vividas, com prazer diga-se, ao longo dos últimos 4-5 anos, para o desenvolvimento da idéias que norteiam o Projeto de Gente, para a criação da Associação Projeto de Gente, para a realização do Curso de Formação em Escolas Democráticas do Instituto Lumiar (SP), como exemplos, foram superadas, única e exclusivamente, graças ao persistente trabalho de um grupo de pessoas que têm doado energia – na forma de horas e horas de trabalho dedicado – além de recursos financeiros próprios, porque seguras do valor deste empreendimento.


8) Como esse projeto educacional pode contribuir para que outras pessoas e instituições desenvolvam projetos democráticos e orientados para a autonomia de docentes e estudantes?

O Projeto de Gente é, sem dúvida, um conjunto de idéias que pode ser implantado em instituições que compartilhem esta visão.

Entretanto, queremos aproveitar esta pergunta para reiterar a importância do cuidado com a Individuação como um tema caro tanto para a democracia quanto para a saúde da pessoa. Ísis Martins escreveu que “uma pessoa que se harmoniza com (,,,) seu movimento natural (...) estará no caminho de sua própria saúde” e, podemos acrescentar, de uma democracia mais plena.


9) Que tipo de iniciativas a Idec poderia promover (temas, formatos, informações, pessoas a convidar etc.) para ajudar a superar essas dificuldades? Que tipo de iniciativas podem ser úteis antes da Conferência?

Claro que a simples participação e envolvimento com pessoas desejosas de partilhar experiências e conversar sobre educação, liberdade, distribuição igualitária de poder entre educadores(as) e educandos(as) já nos ajuda, exatamente por movimenta a bela energia para o prosseguimento do difícil trabalho de trazer à tona princípios alternativos aos oficiais - porém, minimamente, tão legítimos quanto estes.

Do ponto de vista objetivo, como dissemos, estamos precisando conhecer pessoas e instituições que, eventualmente, se interessem em investir – ou incluir em sua organização – nos princípios do Projeto de Gente.

Se, naturalmente, o Idec puder fazer pontes neste sentido seremos muito gratos.


Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 2007

Alexandre L. A. Cavalcanti
Elza Reis
Marcio França



Apêndices


1- Sobre a Origem do Nome da Escola

Certo dia, um sujeito ouviu uma mãe comentar que seu filho, com mais ou menos dois anos de idade, não entendia nada do que ela estava dizendo porque ele era apenas um “projeto de gente”.

Ouviu e sentiu seu coração apertado ao reconhecer quantas vezes as crianças são desqualificadas e atropeladas por este tipo de atitude; ouviu e recordou-se quantas vezes ele, seus irmãos e amigos foram tratados com o mesmo desprezo quando eram crianças; ouviu e percebeu que muitas vezes isto não acontecia por má fé, ou exatamente desamor, mas pelo hábito de se considerar as crianças incapazes de ter percepções e sentimentos sobre o que se passa à sua volta, como se fossem nada, ou apenas um esboço, um projeto.

Olhando a criança e percebendo a profunda tristeza em seu olhar, o sujeito reafirmou a certeza de que aquela criança era um projeto sim, mas um projeto de vida que merecia toda atenção e cuidado para desenvolver-se livre e respeitada desde seu primeiro momento no planeta: um ser sensível e único, singular.

Lembrou-se da canção:

“...já podaram seus momentos, desviaram seu destino, seu sorriso de menino quantas vezes se escondeu...”,

e então, – embora não acredite que alguém possa exata e deterministicamente desviar o destino de outra pessoa, mas sabe que um sorriso pode de fato se esconder... e tão bem que, muitas vezes não é reencontrado - deu-se conta que encontrara nome para o empreendimento que vinha elaborando há alguns meses.


2- O Arquétipo da Escola Projeto de Gente

O belo mito grego que narra a história do Centauro Quíron, o médico ferido, vai ilustrar com poética propriedade a alma desta escola, pois Quíron descobriu, na própria pele, o que muitas culturas, algumas muito antigas, denominam a Imagem Primordial da Alma: o misterioso centro da personalidade de cada indivíduo - a semente que tenta a todo custo desenvolver-se e manifestar-se, o verdadeiro “repositório do destino individual”, com disse Hillman.

A história de Quíron:

Filho do deus Crono e de Fílira, era também divino e possuía, portanto, o atributo da imortalidade.
Meio cavalo-meio humano, Quíron identificava-se com os seres humanos, era amigo deles e ensinava-lhes música, a arte da guerra e da caça, além de exercer a medicina, pois conhecia as propriedades curativas de certas ervas. Entretanto, ainda não tinha consciência do quanto conheceria e compreenderia os humanos, nem do quanto sua forma de ser médico se desenvolveria.

Amigo de Hércules, o centauro foi, inadvertidamente, atingido por uma flecha envenenada disparada por ele. O veneno mágico provocava uma ferida que, embora não matasse, não cicatrizava, nunca curava. Uma ferida que, como toda ferida, quando tocada doía muito, insuportavelmente. Quíron aprendeu que precisava proteger aquele lugar.

Para ele, proteger significava cuidar, e, para cuidar da melhor maneira, precisava então conhecer bem aquele ponto de sensibilidade.

Pois foi exatamente por isto, que Quíron compreendeu profundamente quem eram os humanos.

O centauro ferido percebeu que todos possuem um lugar em seu ser de extrema sensibilidade; uma ferida, podemos dizer. Uma ferida que nunca fecha. Percebeu que isto não acontecia apenas no corpo, estava de fato presente no interior de cada um, em seu íntimo. Havia uma ferida na alma.

Percebeu - por sentir em si mesmo a dor...e, daí, o medo de vir a sentir esta dor – que, embora todos possuíssem uma ferida, em cada um ela era única, absolutamente pessoal. De fato, constituía uma sensibilidade que identificava aquela pessoa.

Aprendeu que se reconhecêssemos, aceitássemos e cuidássemos da ferida, vale dizer, se reconhecêssemos, aceitássemos, nossa sensibilidade, poderíamos viver com maior tranqüilidade e serenidade, pois, ela – a ferida - não impede a vida; pede apenas atenção e cuidados. Na verdade, em seu sentido mais profundo, esta sensibilidade revela a vida, pois será de acordo com ela que aquela singular pessoa se sentirá realmente viva.

Agir assim significa reconhecer quem cada um é, aceitar quem é e encontrar a melhor maneira de cuidar de si mesmo.

Compreendeu que se nos rebelássemos contra esta sensibilidade pessoal, negando-a, estaríamos inevitavelmente construindo um grande mal estar. Quíron, o médico ferido, apontava para a gênese da doença em seu sentido mais radical.

Na gruta do Monte Pélion, onde vivia, o centauro orientou vários curadores, entre eles Jasão e Asclépio, sempre ensinando que a possibilidade de cura mais profunda estava no contato e aceitação com nossa sensibilidade mais íntima, com nossa condição única de ser.

Outro aspecto de imensa importância percebido por Quíron foi que, quando conhecemos e respeitamos a nós mesmos, a chance de nos abrir para conhecer e respeitar o outro aumenta muito. Vislumbrava, por conseguinte, a possibilidade de construção de uma sociedade mais justa e sadia.

Entretanto, sua condição imortal trazia-lhe angústia infinita. A imortalidade era incompatível com a vida, pois a dor, embora conhecida e cuidada era, para ele, eterna e, por isso, insuportável. Os humanos podiam morrer, o médico ferido não.

Compadecido, Zeus - ouvindo os conselhos de Hercúles, infatigável em sua luta por minorar o sofrimento que involuntariamente provocara no amigo -, aproveitou uma circunstância favorável e trocou a imortalidade de Quíron pela mortalidade do humano Prometeu, que nascera mortal, mas conquistara, por suas atitudes durante a vida, a condição divina.

O médico pôde, enfim, morrer.

Homenageado pelos deuses transformou-se na constelação de Sagitário, o centauro que lança a flecha, que um dia o envenenou, mas agora simboliza a trajetória daquele que, através do conhecimento e da aceitação profunda de si mesmo, soube perceber também a dor e sensibilidade do outro e ensinou como cuidar desta condição. Além do mais, reconheceu aí a origem da doença – e a busca da cura - no ser humano.

Quíron nos fala, portanto, da necessidade de reconhecer e respeitar quem somos e quem cada um é; de se conhecer a vocação vital de cada um, não apenas a vocação profissional como é nosso hábito, mas a profunda vocação do ser; e, sendo, contribuir com o que melhor temos a oferecer para a organização da vida abundante.

O Médico Ferido coloca esta possibilidade na base da construção de uma vida realmente saudável. Leva radicalmente a sério a antiga citação: “mente sã em corpo são.” Radicalmente, pois, para ele, não há um sem outro, nem outro sem um.

Junito Brandão, dedicado ao estudo e ensino das culturas antigas, ouvia os mitos e dizia:

“Cada nação, cada cidade, cada povo, cada casa, cada família, cada homem tem o seu Centro do Mundo, seu “ponto de vista”, seu ponto imantado, que é concebido como ponto de junção entre o desejo-necessidade - coletivo ou individual – e... que (alimenta)... a possibilidade sobrenatural de satisfazer a esse desejo-necessidade...”

Este parágrafo está em completa harmonia com o significado do mito de Quíron, o mestre de Asclépio – o Esculápio dos latinos -, filho de Apolo e da mortal Corônis, tão talentoso na arte de curar que chegou a ressuscitar algumas pessoas, e foi, por isso, fulminado por Zeus que temeu um possível transtorno da ordem do universo.

Asclépio, um dos deuses mais longevos de todo o panteão divino grego, também vai nos ajudar a compreender o Projeto de Gente.

Ele criou uma Escola de Medicina e Centro de Saúde em Epidauro, na Grécia, que seguia os ensinamentos de seu mestre, sintetizado no conhecido dito: “Conhece-te a ti mesmo”.

Na entrada de seu santuário de cura, gravou as seguintes palavras:

“Puro como aquele que entra no Templo. Pureza significa ter pensamentos sadios.”

Puro, no sentido do pensamento grego, é aquele que busca, incansável, alcançar o seu centro, seu templo.
Em profunda sintonia consigo mesmo, ele terá pensamentos, sentimentos e ações saudáveis e construtivos, puros e originais. Neste centro muitos identificam o que é chamado de divino - um divino que é também humano - ao qual devemos nos religar, respeitar, amar e oferecer ao mundo.

Em Epidauro, todas as ações de cura tinham como objetivo promover o autoconhecimento, a alcançar a mais pura consciência de si mesmo, ponto de partida para a transformação dos sentimentos e ações reativas e equivocadas em atitudes harmônicas e saudáveis.

Lá havia um pequeno teatro, o Odeon; um Estádio, para competições esportivas; um Ginásio, para exercícios físicos; também um grande Teatro; e uma Biblioteca. Todo este conjunto visava a elevação espiritual e a humanização dos que procuravam cuidar-se. Havia também uma sala onde as pessoas dormiam, sonhavam e contavam seus sonhos – a mais arcaica fonte de contato com nosso mundo íntimo - para que fossem interpretados pelos médicos, que então prescreviam tratamentos, com uso de cores e águas, por exemplo.


3- O Mosaico do Conhecimento

Para melhor compreensão, vamos desenhar um imaginário, mas não impossível, mosaico.

Um grupo de crianças – ou um educador – propõe remover uma pedra que existe em um recanto do quintal da casa onde funciona a escola. Segundo eles, ali poderia ser construído um campo de jogos, ou uma horta, ou uma piscina de areia para os pequenos.

A idéia é levada a debate, já que implica em uma intervenção num espaço comum. Alguém argumenta que esta remoção pode não ser adequada do ponto de vista ambiental; entretanto, um estudo de viabilidade não é rechaçado.

Assim, o grupo organiza o “Projeto Tem Uma Pedra No Meu Caminho”.

Crianças pequenas, interessadas na possibilidade de uma piscina de areia, vão aprender a ler através das palavras: pedra, piscina, areia, pedrada, pedreira, etc.; outras, mais velhinhas, vão aprender sobre eras geológicas, tipos de solos e minerais, etc., por conta do mestre em geologia que irá estudar, com eles, se a pedra é original daquele terreno ou se foi depositada ali; outros mais estudarão as possíveis formas de removê-la – o princípio das alavancas, conceitos antigos e modernos sobre a lei da gravidade, física enfim, clássica e moderna, além de princípios da química – combinações de elementos explosivos, por exemplo -; o menino que lembrou da poesia de Carlos Drummond de Andrade, e propôs o nome do projeto, organiza um grupo (pequeno a princípio) de pessoas interessadas em poesia e aprenderão sobre poetas brasileiros, seus estilos, elementos da língua portuguesa, etc.. Além disso, elaboraram uma apresentação de poesia, música e teatro, depois de assistirem a um espetáculo de Pedro Paulo Rangel baseado em letras de Chico Buarque de Holanda.

Um vasto arco dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) estará abrangido por estas atividades que serão, cuidadosamente, anotadas formando, assim, um percurso de aprendizado e conhecimentos adquiridos por cada estudante envolvido: o seu Mosaico de Conhecimentos


4- O Mosaico da Pessoa

Um novo exercício de imaginação pode nos auxiliar a compreender o objetivo – e, talvez, o cerne deste projeto de trabalho – do Mosaico da Pessoa.

Vamos conhecer Lucas, um garoto de cerca de 11 anos, estudante na Escola Projeto de Gente há mais ou menos 6 meses: um dia o mestre que orientava o futebol comentou, com o pai do menino, como Lucas estava mais solto em quadra, jogando melhor, mais alegre, menos ansioso. Disse mais ou menos o seguinte: “Lucas está encontrando seu lugar no time. Ele não é do tipo agressivo, não se sente bem como beque que precisa parar uma jogada; nem é o cara que busca os holofotes, não gosta disso, não é o goleador. Lucas gosta mesmo é de servir aos companheiros, passar a bola para que o outro chute a gol. Outro dia sugeri, conversando com ele, que jogasse no meio de campo, e foi ótimo. Ele se sentiu mais seguro e adequado... mais em casa. Agora, mais à vontade, chega a arriscar um drible mais difícil ou mesmo um chute a gol. Está descobrindo habilidades que nem mesmo ele sabia que tinha. Já não se cobra tanto porque na maior parte do jogo está relaxado, jogando como gosta, do jeito que ele é.”

Um dos educadores, que trabalhava com Lucas num projeto de matemática, ouvindo os comentários mestre de futebol, aproximou-se e participou da conversa lembrando que Lucas gostava mesmo de trabalhar em grupo, muito mais do que quando colocado “sob as luzes” de perguntas diretas e individuais. Deste então estimulou mais a participação coletiva de Lucas e reparou como ele se soltava com muito mais facilidade e bem estar, ajudando com grande criatividade nas soluções de questões levantadas pelos companheiros.

Algum tempo depois Lucas se interessou pelo projeto de teatro, e muitos se lembraram que ele costumava ficar observando os trabalhos de palco, mas sempre desqualificava a atividade quando era, eventualmente, convidado a participar.

Uma estrutura defensiva havia se rompido naturalmente em Lucas, e ele pôde desenvolver aspectos que estavam impedidos até então.

Vale lembrar Fernando Pessoa:

“A criança que fui chora na estrada
Deixei-a, ali, quando vim ver quem sou.
Mas hoje vendo que o que sou é nada,
Quero buscar quem fui onde deixei.”





Criada por: carol588 pontos . última modificação em: Sábado 06 de Setembro, 2008 18:45:57 BRT por helena1663 pontos .

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